O 18 de Maio e a Luta Antimanicomial: Reflexões sobre Saúde Mental
- Lucas Roldan

- 13 de mai.
- 3 min de leitura
Todo ano, no dia 18 de maio, o Brasil comemora o Dia da Luta Antimanicomial. Para muita gente, é uma data que pode passar despercebida — um item no calendário de saúde pública, talvez uma publicação nas redes sociais. Para quem trabalhou no campo da saúde mental, ela tem outro peso.
A data não foi escolhida ao acaso. Em 18 de maio de 1987, em Bauru, São Paulo, aconteceu o II Congresso Nacional dos Trabalhadores de Saúde Mental. Foi ali que surgiu o lema que se tornaria símbolo de uma geração:
"Por uma sociedade sem manicômios"
Não era só uma crítica a um tipo de prédio — era uma crítica a um modo de tratar a loucura: pelo isolamento, pela supressão, pelo apagamento do sujeito.
O movimento que se organizou a partir desse congresso foi central para a construção da Reforma Psiquiátrica Brasileira, que culminou na Lei 10.216 de 2001. Com ela, a lógica passou a ser outra: desinstitucionalização, cuidado no território onde a pessoa vive, rede de serviços substitutivos. Surgiram os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), as Residências Terapêuticas, os Centros de Convivência.
Passei boa parte da minha formação dentro das estruturas que essa luta ajudou a construir. Na enfermaria psiquiátrica, acompanhei pacientes que acumulavam décadas de internações. Nas Residências Terapêuticas, trabalhando como acompanhante terapêutico, vi de perto o que significa reaprender a habitar um espaço doméstico depois de anos dentro de uma instituição. No CAPS, acompanhei o que um serviço dentro do território de uma pessoa pode oferecer que nenhum leito hospitalar consegue substituir. Essas experiências me ensinaram algo que a formação teórica sozinha não seria capaz de ensinar:
a diferença entre tratar uma doença e acompanhar um sujeito...
Essa distinção, que parece simples, tem consequências clínicas enormes — e a prática no campo público as torna visíveis de um jeito difícil de ignorar.
A psiquiatria contemporânea organiza seu trabalho em grande parte a partir dos manuais diagnósticos — especialmente o DSM, em sua versão atual. Há valor nisso: uma linguagem comum entre profissionais, critérios que orientam condutas, categorias que ajudam a reconhecer padrões de sofrimento. Mas há também um risco que só se percebe de dentro da clínica: quando o diagnóstico deixa de ser um instrumento e passa a ser a própria leitura da pessoa, algo essencial se perde.
O que se perde é a história. O contexto em que aquele sofrimento emergiu. Os recursos que o sujeito já construiu, muitas vezes sozinho, para lidar com o que o acomete. As relações que ainda sustentam algo de sua vida. Tudo isso pode desaparecer atrás de um código — e, junto com isso, a conduta clínica pode se reduzir a uma tentativa de suprimir sintomas sem se perguntar o que esses sintomas estão tentando dizer.
Isso não é uma crítica à psiquiatria — é uma defesa do que a clínica exige além dela. A medicação pode ser indispensável. O diagnóstico pode ser necessário. Mas nenhum dos dois substitui a pergunta mais fundamental: quem é essa pessoa, e o que esse sofrimento diz sobre sua vida?
A orientação psicanalítica, que guia meu trabalho, parte exatamente dessa recusa em apagar o sujeito atrás do quadro clínico. Freud já apontava, no início do século passado, que os delírios e os sintomas mais perturbadores não são apenas ruído — são tentativas de reconstrução, respostas a algo que o sujeito não conseguiu simbolizar de outro modo. Escutar a partir daí muda tudo: a posição de quem cuida, o ritmo do tratamento, o que se considera como progresso. Aprendi isso na enfermaria, no CAPS, nas Residências Terapêuticas. E é esse aprendizado que continua orientando minha prática hoje.

A luta antimanicomial questionou a tendência histórica de isolar e silenciar o sofrimento psíquico. Mas o manicômio, nesse sentido, não é só um prédio com grades. É uma lógica — a de que certas pessoas, por não se adequarem a determinadas normas, devem ser apartadas, controladas, reduzidas ao diagnóstico que carregam.
Essa lógica não precisa de muros para operar. Pode estar presente em qualquer setting clínico, em qualquer conduta que trate o sofrimento como um inconveniente a ser eliminado, em vez de uma expressão que merece ser escutada.
O 18 de maio não é uma data qualquer. É um convite a perguntar o que, de tudo isso, ainda está por fazer — nos serviços públicos, nas políticas de saúde, e também nas práticas cotidianas de quem trabalha com saúde mental. O sujeito que chega para ser cuidado não é, nunca foi, só um conjunto de sintomas. E sustentar essa convicção, na prática, é o que a luta antimanicomial ainda pede.

